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Quem sabe ser notícia também fora de campo?

Quem sabe ser notícia também fora de campo?

Capítulo 3

 

Venho já há dois capítulos falando do enorme potencial da Ásia para a indústria do futebol e de como o Brasil pode se preparar e engajar neste movimento. No entanto, concordo que as barreiras de entrada são elevadíssimas: fuso horário mais de dez horas à frente do nosso; uma língua que utiliza um conjunto de caracteres incompreensível para nós; uma nação com uma cultura milenar, por vezes misteriosa, multifacetada e sem grandes conexões com a de nosso país; um território ainda maior que o brasileiro, com metrópoles gigantescas e diferenças regionais muito acentuadas…a lista é bastante extensa.

Ok. Mas você sabia que as barreiras são as mesmas para a maior parte do mundo, incluindo boa parte de quem protagoniza o futebol mundial?

Mesmo assim, as powerhouses europeias e mesmo os vizinhos asiáticos e da Oceania vem encontrando maneiras de se estabelecer no país e desenvolver negócios bem interessantes, alinhados com suas estratégias. Não é nada fácil, mas é um trabalho que, com persistência e entendimento de cada passo a ser dado, é possível de realizar.Em outras palavras: planejamento. Algo tão em falta no nosso dia-a-dia.

Para começar, a mesma internet que une cada vez mais o mundo do futebol ocidental também é aliada nesta missão. Peraí, como assim? Se Google, Facebook, similares e derivados são todos proibidos?

Bom ponto. Os chineses possuem as suas próprias redes sociais, algumas vezes espelhadas no que conhecemos por aqui. Há o próprio Twitter, o próprio Whatsapp, etc. É um mundo deles (lembra que na milenar história chinesa eles se consideram a própria civilização?). E há agências especializadas em realizar esta tradução do mundo ocidental para o universo chinês, desenvolvendo estratégias de social media específicas para o futebol e retornando aos contratantes muitos dados e estatísticas para continuar com o trabalho.

Esse “meio-de-campo”, juntamente com serviços de organização de espetáculos esportivos (estes mais similares ao que encontramos nos EUA e Europa) vem sendo decisivo no planejamento de excursões de equipes europeias e cálculo de ROI para patrocinadores que embarcam junto aos elencos para a Ásia. Além disso, estamos encontrando uma massa crítica de executivos chineses, jovens e muito talentosos nas suas relações internacionais, que se formaram nas melhores escolas do Reino Unido, Estados Unidos e Austrália. Eu mesmo tive o privilégio de ser colega de vários deles, e impressiona seu empreendedorismo e tino para os negócios, do esporte ou não.

Além disso, a indústria especializada em Big Data anda lado a lado com este segmento e não apenas o complementa, mas alimenta um Tsunami que quebrará muitas “verdades universais” do esporte em breve. No eixo anglo-saxão-asiático do futebol, cientistas de dados já são membros fixos de comissões técnicas, da MLS à Chinese Super League, passando por Premier League e Bundesliga. Escritórios especializados nos dados fora das quatro linhas também proliferam. O que isso quer dizer? Que o nível de mapeamento de performance esportiva e de potencial para negócios já é tão grande, que os riscos diminuirão e critérios se transformarão. Boa notícia para investidores, que terão retornos muito melhores. Péssima para quem faz corpo mole ou vende sem ter condições de entregar.

Naturalmente, um dos negócios primários do futebol que se beneficia disso tudo é o broadcasting. Com o nível assustador de mensuração e correlações possíveis, não só os valores territoriais de venda de direitos aumentam, como estãoem alta as discussões sobre o delivering das transmissões. O acesso à dispositivos mobile no mercado chinês é facílimo e os broadcasters chineses já enxergam televisão e digital como uma coisa só. 

Bom, voltando ao início. É difícil entrar? É. Mas temos um grande ponto a favor do qual ainda não falei. Somos fluentes na língua do futebol, e ela é universal. Só para lembrar, a maior transação do futebol chinês envolveu a vinda do atleta Hulk do Zenit (Rússia) para o Shanghai SIPG por 55 milhões de euros.

O apetite chinês impressionou não só a nós, mas até mesmo experientes scoutings europeus, como os próprios me confidenciaram. Quem sabe o Brasil não pode estar no centro de mais feitos como estes, principalmente fora de campo? Se quisermos, temos todas as condições para isso.

Gustavo Spanholi é Master in Football Industries pela Universidade de Liverpool e Gestor de Marketing no Figueirense FC. Guest Speaker do Brasil no World Soccer Congress 2016 em Shanghai, China.

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