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Leandro Netto brilhou com a camisa do Henan Jianye e se tornou o "imperador chinês"

Atacante brasileiro jogou no clube entre 2009 e 2013 e disputou a Liga dos Campeões da Ásia

O “imperador chinês” é brasileiro e atende por Leandro Netto de Macedo. Atacante nascido no Rio de Janeiro, Leandro Netto atuou no Henan Jianye entre 2009 e 2013 e no Hunan Billows entre 2013 e 2014. Em sua passagem pelo Henan, Leandro teve grande destaque e participou da melhor campanha da equipe na história da Super Liga da China, quando conquistou o terceiro lugar em 2009, alcançando a inédita classificação para a Liga dos Campeões da Ásia. Com a camisa do Henan Jianye, Leandro Netto se tornou o estrangeiro com maior número de gols e partidas disputadas pela equipe. Com passagens pelo futebol português, da Síria e times brasileiros como Brasiliense, Sampaio Corrêa e Metropolitano, Leandro fala para o China Brasil Futebol de seu período no futebol chinês e como ele vê a atual temporada do Henan Jianye.


1) Você jogou na China de 2009 a 2014. Como foi sua experiência? Como era o nível de competitividade do país?

Leandro: Posso afirmar que a minha experiência foi a melhor possível. Assim que cheguei, já tive uma impressão muito boa, pois já fui logo conhecer o centro de treinamento do clube que estava me contratando. Achei espetacular, não tinha visto algo igual nem nos clubes em que joguei na Europa. E o estádio também era maravilhoso. Isso já me deu uma vontade de ficar e não querer mais voltar. Também me chamou muito a atenção o amadorismo do treinador chinês (Tang Yaodong), do preparador físico, que também era chinês, e dos médicos. A gente não tinha um fisioterapeuta como temos aqui no Brasil, era muito trabalho de acupuntura. Isso me preocupou, por isso tentei não me machucar em todos esses anos que estive lá. Agora estou sabendo que já melhorou bastante, até no meu último ano já estava vendo a comissão técnica começando a trazer fisioterapeutas e fisiologistas de fora. Na época que (eu) estava lá, o futebol chinês já era muito competitivo. Tinha muitos jogadores de talento, de grandes nomes, no ano em que era vice-artilheiro tinha o Didier Drogba, Nicolas Anelka, Darío Conca, Muriqui, Seydou Keita, não é de agora que eles estão contratando. A competição realmente é bem equilibrada e o futebol chinês vem evoluindo a cada ano. Justamente por aceitar mais a opiniões dos jogadores que vem de fora, até mesmo treinadores, porque antigamente eles tinham ciúmes de quem vinha de fora, jogadores e treinadores, com medo de que fossem tomar o espaço deles. Tive um pouco de dificuldade no início, até tive um problema muito sério com o treinador Tang Yaodong, mas depois disso tudo ficou ótimo, passamos a nos respeitar e consegui crescer muito no futebol chinês. O Henan Jianye sempre foi de brigar para não cair, e no ano em que estive lá brigamos para ser campeão até o último jogo e ficamos em terceiro. O campeão foi o Beijing Guoan. Desde então, o time nunca mais foi o mesmo. Chegou até a cair de divisão (em 2012). E nesse ano, ele realmente está fazendo uma campanha boa, lembrando a campanha quando (eu) estava presente.


2) Você chegou a sentir esse ciúme dos jogadores chineses? E o que houve entre você e o Tang Yaodong?

Leandro: Senti sim, principalmente dos jogadores mais velhos que estavam no clube há um tempo. Não por parte dos estrangeiros, só dos próprios chineses. Mas isso foi apenas no primeiro ano, depois foi tudo tranquilo, eles me aceitaram bem. O tratamento com o estrangeiro é realmente diferenciado, por exemplo, não sei se ainda é assim no Guangzhou, mas no Henan ainda é, os jogadores chineses são obrigados a morar na base, no centro de treinamento. Enquanto os estrangeiros podem ir para casa e voltar só para treinar. Aí já começava o ciúme. Depois que contrataram um treinador estrangeiro e começaram a liberar os jogadores casados para poderem ir e voltar, o ciúme foi diminuindo. Hoje já é normal para eles, estão acostumados com este tipo de atitude do treinador. Em relação ao meu problema com o Tang Yaodong, os treinadores chineses são muito rígidos. É a cultura deles e (eu) não estava preparado para isso. Uma vez num treino no estádio do Shenzhen, estava muito quente, perto dos 35°C. Todos estavam de cabeça quente e estressados, e (eu) levei uma cotovelada do zagueiro sul-coreano na altura da minha boca. Fui falar com ele que não havia necessidade disso, porque íamos jogar no dia seguinte. Ele não pediu desculpas e reclamei. O treinador me deu uma dura, disse que não era para falar nada, que só ele podia falar e o tradutor traduzindo. Fui mostrar para ele que minha boca estava sangrando e que não era para ele brigar comigo, mas sim com o sul-coreano, porque (eu) não tinha feito nada de errado. Nesse mesmo momento, o Tang Yaodong pegou uma garrafa d’água e jogou no meu rosto. Fiquei muito nervoso e fui para cima dele não para agredir, mas rebater. Os jogadores vieram e nos seguraram. Depois voltamos para o hotel e lá tudo foi resolvido. A presidente do Henan pegou um avião e veio até o meu quarto para conversar comigo, junto com meu empresário chinês que traduziu tudo. Ela pediu desculpas, falando que era a cultura deles, para eu aceitar e que eles não iriam me mandar embora. Queriam que eu ficasse e depois o meu empresário me levou até o quarto do Tang Yaodong para falar com ele, e assim pedimos desculpas um para o outro. Dali em diante, esse assunto nunca mais foi tocado, nem saiu na imprensa. Ficou fechado entre nós e os jogadores. A cultura deles é bem fechada e séria. A presidente pediu para ninguém falar nada, e nenhum dos jogadores falou. Isso ficou sempre guardado. Também presenciei de treinador sul-coreano agredir um jogador da mesma nacionalidade, dar tapa no rosto e precisarmos entrar no meio para parar. São aspectos da cultura deles que presenciei e me chamou atenção, mas não gostaria de ter presenciado. Isso tudo foi no meu primeiro ano no Henan Jianye. Ou seja, poderia ter vindo embora no mesmo ano. Mas foi só uma demonstração da conduta que deveria ter para permanecer no país. E assim o fiz.


3) No seu primeiro ano no Henan Jianye, o time teve a melhor campanha na história da Liga, alcançando o terceiro lugar. Ano passado a equipe conquistou o quinto lugar e hoje está em sexto. A que se deve essa substantiva melhora no Henan?

Leandro: Com certeza foi a união do grupo. O treinador Tang Yaodong é excelente para fechar o grupo, o time tem muito respeito por ele e a própria humildade dele em buscar informações sobre como e onde poderia melhorar, e ter deixado esse legado para o próximo treinador que entrou, que foi o Jia Xiuquan. Ele era o treinador do Henan antes de (eu) chegar e o Tang Yaodong era o seu auxiliar. O Tang aprendeu com o Jia Xiuquan, que depois foi para o Shanghai Shenhua. Ele assumiu em seu lugar e continuou o legado deixado pelo anterior. (Eu) Nunca trabalhei como o Jia Xiuquan e não sei a forma como ele trabalha, mas tem dado certo. Também havia dado certo na primeira passagem dele pelo Henan Jianye, mas não alcançou os resultados que o Tang Yaodong conquistou. Por isso o Henan é um dos poucos clubes que insiste nos treinadores chineses, apesar de já ter contratado treinadores estrangeiros. Até na minha época, chegamos a trabalhar com dois holandeses e um sul-coreano. Nenhum deles deu resultados e então voltaram a apostar nos treinadores chineses. E contrataram o técnico que ensinou o meu treinador. O Henan é um dos poucos clubes que não tem grandes jogadores conhecidos no elenco. É um time que preza muito pelos jogadores da casa, que começam desde pequenos no clube. Essa é a aposta que o Jia Xiuquan vem fazendo, não buscando jogadores de fora que tomem o espaço dos que já estão lá e está fechando muito o grupo. Dos jogadores estrangeiros que foram contratados, três permaneceram e trouxeram mais dois. Ou seja, ele manteve a base da equipe, o que é essencial.


4) Você ficou conhecido como o “Imperador Chinês” durante seu período no Henan. Como vê hoje o meia brasileiro Ivo brilhando já há dois anos no clube?

Leandro: Fico muito contente de saber que outro brasileiro está se destacando por lá. Sei que o Henan Jianye teve dois ídolos, até o momento: o polonês Emanuel Olisadebe e eu, que cheguei depois dele. Fui o maior artilheiro estrangeiro do Henan, e o estrangeiro que mais jogou com a camisa do clube. E ver que tem outro brasileiro se destacando me deixa muito satisfeito. Espero que ele consiga continuar, porque não é fácil manter o nível. Enquanto isso continuo acompanhando e torcendo pelo melhor do clube. Se for um jogador que vista a camisa e que se identifica com a torcida, então é merecedor de também ser reconhecido.  


5) Como foi sua adaptação na China? E quais são as diferenças entre as províncias de Henan e Hunan?

Leandro: O primeiro ano de adaptação foi difícil. O apartamento que arrumaram para a gente era distante até do mercado. Então não tinha muita opção para comprar comida, só comíamos frango e arroz. E o tradutor não ajudava muito. Minha mulher também encontrou dificuldades, porque ela ficava muito sozinha com minha filha, que tinha apenas um ano. Mas a partir do segundo ano, a gente já estava bem adaptado, pegamos nomes de lugares para ir, conseguimos gravar áudios para mostrar ao taxista onde queríamos ir, eu já estava mais conhecido na cidade, então encontrava muita gente disposta a me ajudar. E não tem uma diferença grande entre Henan e Hunan. Henan é a província, e a cidade em que eu morava era Zhengzhou. E Hunan pertence à província de Henan. Morei em Changsha. Como pertenciam à mesma província, não tinha muita diferença em questões de desenvolvimento e clima.


6) Depois do seu período no Henan, você acertou com o Hunan Billows para jogar em 2013. Como foi jogar na China League One? Quais são as diferenças entre a primeira e segunda divisões?

Leandro: Posso te afirmar que a segunda divisão é tão competitiva quanto a primeira. Não vi diferenças entre os jogadores chineses, eram tão bons quanto os que estavam na primeira. E até entre os jogadores estrangeiros, por só poderem jogar três de fora da China os escolhidos eram de muita qualidade. Pensei que tomaria um choque muito grande por jogar quatro anos na primeira divisão, brigando pela artilharia, e de repente vou para a segunda. Mas não, fui surpreendido. A estrutura do Hunan não era tão boa quanto a do Henan, mas tinha um excelente estádio. Muito bom também em termos de material esportivo, não era Nike mas era uma marca deles. Em termos de torcida, tinha bastante torcedor nos jogos. Foi até uma surpresa, achava que a segunda divisão da China fosse muito fraca. Mas pode se ver que times que ano passado estavam no topo, hoje estão lá embaixo. Times que brigam para subir, depois estão brigando para não cair. Então, a segunda divisão é realmente competitiva.


7) Você chegou a jogar pelo Al-Karamah da Síria por um ano. Como foi a experiência no país? No que difere da China em questões culturais e no futebol?

Leandro: Na Síria foi completamente o inverso da China. O Al-Karameh é um dos maiores clubes do país, senão o maior da atualidade. No ano anterior tinha sido vice-campeão da Liga dos Campões da Ásia e não tinha estrutura. O clube só tinha o estádio para treinar, com campo muito ruim. Os uniformes eram muito ruins, a gente tinha que voltar para casa suado porque não tinha um lugar para tomar banho depois do treino. Para minha mulher e filha, que tinha apenas cinco meses de vida, foi um país muito difícil de viver. A gente tinha muita dificuldade com a alimentação, comíamos muito um sanduíche de carne de frango. Depois achamos um galeto, porque não tinha um supermercado grande na cidade. Presenciei um fanatismo muito grande por parte dos torcedores, com o qual fiquei muito assustado e com medo. Estávamos ganhando todos os jogos do campeonato, até que empatamos uma partida em casa. Teve uma invasão de torcedores, mas não contra nós jogadores e sim contra os árbitros. E eles foram para cima dos árbitros com uma ignorância muito grande. Eles tiveram que vir para o nosso vestiário e saíram com o rosto sangrando. Fiquei muito assustado e pensei comigo mesmo: “imagina o dia em que nosso time começar a perder e esses caras ficarem com raiva da gente? Como é que vai ser? A gente não vai sair vivo do estádio.” Até então, o policiamento era muito pouco para a quantidade de torcedores que dava, pois eram cerca de 15 a 20 mil por jogo. Conversei com minha esposa, tinha contrato de dois anos e pedi para rescindir meu contrato e ir embora. Achei que não valia a pena, podendo até correr risco de vida. A gente estava jogando fora de casa contra o segundo maior time da Síria e rival do Al-Karamah, e vendo CDs caindo dentro do gramado. Estavam jogando CDs como se joga bumerangue. Apesar do contrato ser bom em termos financeiros, não compensava. O lado negativo pesou muito. E também não me senti bem, senti muitos ciúmes dos jogadores com minha chegada ao clube. Tinham dois atacantes que jogavam do meu lado e não passavam a bola para mim de jeito nenhum, porque ficaram chateados que eu ia tomar o lugar deles no clube. Foi uma experiência que nem gosto de recordar porque não foi boa.


8) Você retornou à China em dezembro de 2015 e participou de eventos e projetos sociais. Como foi sua recepção? Sente vontade de retornar ao país?

Leandro: Foi uma sensação muito boa. O convite que me foi feito me deixou muito contente e mais uma vez meu trabalho foi reconhecido. Fui embaixador de duas escolas na China que começaram a ter futebol. Fui super bem recebido e tive uma homenagem muito bonita. Para mim foi muito gratificante. E com certeza sinto muita vontade de retornar. Já concluí o curso de treinadores que fiz no Sindicato de Treinadores do Rio de Janeiro (SintreFutRJ) e ainda penso em voltar para China como treinador ou até mesmo ainda jogando, se aparecer algum convite. Não posso dizer que parei totalmente, voltei a praticar esporte de alta intensidade e vi que tenho muito a dar ainda.


9) O governo chinês tem investido no futebol do país e tem como grande meta se tornar uma potência do esporte até 2050. Pelo que você presenciou na China, há chances de o país se tornar uma potência no futebol?

Leandro: Sim, o atual presidente chinês (Xi Jinping) gosta muito de futebol. Inclusive, minha ida recente à China foi justamente por isso, porque ele obrigou todas as escolas a ensinarem futebol. Por isso fui embaixador de duas escolinhas de futebol em escolas chinesas. Já se vê por aí que um país de 1,3 bilhão de pessoas, em todos os esportes que investem eles se destacam, porque no futebol eles não iriam se destacar? Com certeza eles vão achar muitos craques perdidos, porque é muita gente, e vão virar uma potência. Não só pelo investimento em termos financeiros, mas também em termos de qualidade, porque cada vez mais eles procuram melhorar. E agora, eles estão tendo humildade em reconhecer que não são potências no futebol e estão indo lá embaixo para recomeçar. E onde estão recomeçando? Nas escolas, tentando educar os meninos a aprenderem a gostar de futebol. A partir daí já se vê o pensamento deles. Viram que só com o dinheiro não estava dando resultado, então começaram a investir nas escolinhas de futebol, que é o mais correto.


@HartungLeo

 

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